Solitarium Lupus 1: O visitante noturno

Heróis, pessoas que salvam vidas e que são boas. Não, não é sempre assim. Cada pessoa tem uma visão diferente da vida. Hitler era considerado um herói na visão de outros nazistas e se ele tivesse ganhado a guerra ele seria considerado um grande governante, mas ainda bem ele foi derrotado e ele é considerado um anti-herói.

Um outro exemplo de visão diferente é das crianças em relação aos seus pais. Todas as crianças acham que os seus pais são os maiores do mundo e que podem tudo, mas não podem. Ninguém pode tudo, existem leis que não permitem que haja caos ai afora e eu como atual delegado da cidade é meu dever proteger as pessoas e defender as leis. Por isso que quando alguém me chama de herói eu rapidamente peço que pare.

Não, eu não quero ser chamado de coisa melhor, eu apenas estou cumprindo o meu trabalho, tanto que se muitas pessoas no mundo fizessem o seu trabalho o mundo seria um paraíso e os anjos teriam inveja de nós.

Mas a história de que eu vou lhes contar é de um verdadeiro herói, não era o trabalho dele proteger as pessoas e ele poderia ser morto facilmente se descobrissem quem ele era, não, o que ele era pois essa pessoa nem mesmo era humana, ou, pelo menos, não era completamente.

Há cinco anos eu havia feito uma entrevista ao jornal local, me lembro vagamente do momento da entrevista e por isso eu não vou contar como foi, mas me lembro claramente o momento em que me vi na televisão quando a entrevista foi ao ar. Isso nada tinha a ver com a estranha sensação que senti quando me vi falando.

Mas sim o que aconteceu depois, era cerca de 10 horas da noite, eu estava sozinho na delegacia. Porque eu estava sozinho numa delegacia? Simples, a cidade é pequena e a carga de trabalho é pequena, em situações normais não acontece nada aqui no interior. O inferno é que estava acontecendo algo e o único que tinha de trabalhar era eu porque quem tinha de investigar os malditos assassinatos era eu.

Havia gente sendo morta na cidade e sendo levada para dentro de uma caverna, onde as pessoas eram devoradas. Até pensamos que algum circo ou zoológico teriam trazido algum animal selvagem que teria fugido, se, houvesse um zoológico ou um circo aqui, só para imaginarem como a cidade de Esmeralda fica no interior.

Quando a entrevista terminou eu desliguei a televisão (de tubo) que havia em minha sala, a ela era um simples cubículo separado do resto da delegacia por duas madeiras MDF com uma janela e persiana, mais uma outra janela que dava para a rua, olhei bem para minha mesinha para ver se havia mais algum parafuso solto para eu apertar.

Olhei para a rua, o céu estava um pouco nublado mas dava para ver a lua minguante no céu. A lua cheia deve ter sido a cerca de três dias atrás, dia do desaparecimento das vítimas. Olhei na minha mesa para procurar a chave de fenda para apertar um parafuso, quando olhei para janela, que antes não tinha nada, apareceu uma forma que me falou:

-Olá.

A minha única reação foi retirar a arma do coldre, quando olhei de novo para a janela, nada havia nela, até pensei que era algo da minha imaginação, mas a minha arma não estava mais na minha mão. E então tive certeza que tinha alguma coisa ali quando ouvi uma voz rouca, humana mas que se aparentava mais com um ganido:

-Policiais não deveriam retirar suas armas assim sem mais nem menos, é contra lei oferecer ameaça a aquilo que se deveria proteger.

Quando eu me virei, vi uma coisa que só tinha visto em meus piores pesadelos ou nos filmes mais trash do cinema. Um lobisomem, com um pelo completamente marrom, exceto pela parte mais escura perto dos olhos. Era maior que eu, andava um pouco curvado sob duas patas e a cabeça parecia com um de lobo, mas o corpo era muito mais parecido com um de humano. Em uma das mãos segurava o meu revolver.

-E quem iria me proteger? - Falei suando frio, mas tentando não transparecer o meu medo.

-Proteger-lhe de quem? De mim? - Falou ele retirando o tambor do revolver e o colocando desmontado em cima da mesa, sem balas. Não quero te ferir, se eu quisesse já o teria feito com esta arma ou no momento em que eu peguei ela.

Nesse momento eu retirei um outro revolver de meu outro coldre e o coloquei na testa da criatura. Ela continuou olhando para a mesa e então eu falei:

-Bela máscara, muito bem feita, se pensa que pode entrar aqui desse jeito está muito enganado. Não sei como você pegou minha outra arma, devo admitir que foi um belo truque.

Observei bem, os tendões das mãos, as presas, garras, era perfeito demais para serem de mentira. Ele então me olhou profundamente nos olhos, os olhos não eram humanos e parecia que eu estava olhando para uma criatura selvagem, pronta para me matar.

-Outra arma? Atire se sentir necessidade, as pessoas vão ficar interessadas em poder me estudar. Só que você pode não conseguir terminar o seu caso, encontrou algumas pessoas mortas sendo devoradas ultimamente, não é?

-Foi você?

-Não, pegue qualquer material genético que você quiser isso deve ser prova de que não sou o culpado, além disso eu sei quem foi o culpado.

-Quem?

-A três dias atrás eu estava andando na floresta, e então eu senti um cheiro de sangue humano, fui andando em direção ao cheiro até que em um certo momento em baixo de uma árvore grande eu vi um outro lobisomem, até então eu pensava que era o único.
“Aquele era diferente, ele era maior, se parecia com algo deformado, não definido, que tentava se parecer com um humano e lobo ao mesmo tempo. Uma tentativa falha, e então vi que ele estava comendo. Um ser humano e este estava com a barriga aberta. Olhei ao redor havia mais corpos...

-Quatro, não é?

-Sim.

Minhas esperanças de encontrar aquelas pessoas vivas foi por água a baixo, as vítimas subiram para dez. E se era verdade, meu trabalho de prender o suspeito triplicava.

-Continue...

-Não fico muito confortável com essa arma na minha cabeça.
-Não ligo, continue.

-A criatura começou então a farejar, num momento estava longe, no outro estava correndo em minha direção e já estava a poucos centímetros de mim, desviei de um golpe por pouco.

-É mais rápido que você?
-Sim. E mais forte, o golpe que ele deu cortou a árvore que eu usava para me proteger.

Eu esperava que aquela história fosse uma mentira, não, eu rezava que fosse.

-Por favor, me diga que você está usando uma fantasia muito bem feita e o que você está me dizendo é mentira.

-Bem que eu queria. Infelizmente eu sou um tipo diferente de lobisomem, não consigo voltar a forma humana, pelo menos ainda tenho vontade própria.

Eu não sabia que essas criaturas existiam, agora sei que existem diversos tipos.

-Amanhã de manhã, me leve aonde aconteceu o ocorrido.

-Não é possível.

-Porquê?

-Não posso andar de dia.

-Porquê?

-Eu ia chamar muita atenção, não acha?

É realmente uma falta de sorte. Desde a época que comecei a trabalhar lá eu só tivera contato com casos pequenos como furtos, invasões de propriedade onde um bêbado jogava papel higiênico nas casas, animais desaparecidos, briguinhas de bares e entre outras coisas tão insignificantes que não valem nem sequer a pena citar.

-Porque você me procurou?

-Quero acabar com esse miserável, mas não tenho como, é mais forte que eu, preciso pegar ele na sua forma humana, se é que ele tem uma. Além disso acho necessário rastrear a origem dele, preciso saber de muitas coisas.

-Acha que possa existir um conde Drácula dos lobisomens?

-Espero que não, nem sei se existem vampiros.

-Se existirem, espero que não brilhem...

-Continuando... E como não posso andar por ai e nem tenho acesso aos dados relevantes, decidi lhe procurar.

-E possivelmente me ferrar.

-Eu não usaria esse termo. - Disse ele pegando a arma da minha mão numa velocidade assustadora. - Diria... Arrasar completamente seu senso de realidade.

Meus senhores, perder meu senso de realidade foi a coisa mais interessante que havia acontecido em meus 35 anos.

-Ótimo, levante-se. Por favor, minhas armas... - Ele hesitou um pouco mas me entregou as duas. - Tentarei lhe ajudar, ainda não acredito nessa sua história, mas não tenho outras pistas sobre o caso. E tenho que te dizer uma coisa, se for verdade. - Eu devia estar sorrindo porque a fera arqueou uma das sobrancelhas – isso vai ser muito divertido. Afinal qual seu nome?

-Eu o abandonei a muito tempo atrás, mas para não ficar me chamando de você ou qualquer coisa pior... Você pode me chamar de lupus.

-E o meu nome é detetive Leonardo Bastos Jr.

-Um lobo e um leão... Isso vai ser realmente divertido

E muito, muito, difícil.

Texto: Leandro Benedet garcia

Ilustração: Reginaldo Arraes

Comentários

Nenhum comentário postado ainda, seja o primeiro!

Poste o seu comentário!

Por favor, para postar o seu comentário faça log in aqui.